O início do ano letivo e a adaptação escolar: um processo compartilhado entre escola e família
Andreia Mendes dos Santos*
Você sabia que o período de adaptação escolar é considerado uma etapa fundamental do processo educativo, especialmente na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental? Que esse processo não se restringe apenas à primeira experiência escolar ou à chegada de novos membros à comunidade educativa?
Especialmente no início do ano letivo, crianças e estudantes passam por momentos cheios de novidades e sentimentos. O ingresso na escola, a separação da família, novos espaços, diferentes rotinas, os colegas e educadores que ainda estão por conhecer… tudo isso pode despertar expectativas, curiosidade e também inseguranças. Da mesma forma, mudanças de turma, de etapa, de professores ou o retorno após um período de afastamento também são experiências que mobilizam emoções.
Para algumas crianças e estudantes estas mudanças podem gerar sentimentos mais intensos, como por exemplo, elas podem apresentar choro, irritabilidade, problemas para dormir, resistência em ir à escola ou até comportamentos regressivos (como voltar a chupar o bico, dormir com os pais ou fazer xixi na cama).
Do ponto de vista pedagógico, a adaptação não se restringe aos primeiros dias de aula pois, muito mais do que um simples momento inicial, a adaptação envolve dimensões emocionais, relacionais e pedagógicas que impactam diretamente o desenvolvimento, a aprendizagem e o vínculo da criança com a escola. Por isso, esse processo deve ser compreendido como gradual, planejado e contínuo, que exige sensibilidade, escuta e corresponsabilidade entre escola e família.
A adaptação envolve a construção de vínculos afetivos, a criação de um ambiente seguro e previsível e o reconhecimento das singularidades de cada criança e é considerado um princípio educativo essencial, alinhado ao direito à educação integral e ao desenvolvimento pleno.
Pesquisas na área da Educação e da Psicologia do Desenvolvimento apontam que experiências iniciais positivas na escola contribuem para a construção da autoestima, da autonomia e de competências socioemocionais. Ou seja, um processo de adaptação bem conduzido favorece não apenas o bem-estar emocional, mas também o engajamento nas aprendizagens ao longo do ano letivo.
Na Educação Infantil, a adaptação escolar tem relação direta com a construção de vínculos afetivos e com a sensação de segurança emocional da criança. Muitas vezes, esse período marca as primeiras experiências de separação do núcleo familiar em um ambiente coletivo.
No Ensino Fundamental, o processo de adaptação assume novos contornos, mas mantém sua relevância. A entrada no primeiro ano, as transições entre etapas, as mudanças de turma ou de escola e as novas demandas acadêmicas podem gerar ansiedade, mesmo em estudantes com experiência escolar anterior.
A criança precisa se sentir segura para explorar, brincar, se expressar e aprender, respeitando seu tempo, sua história e suas singularidades. Isso fortalecerá sua autonomia, à construção de vínculos sociais e ao sentimento de pertencimento à comunidade escolar.
A adaptação está relacionada com práticas pedagógicas acolhedoras, regras claras, rotinas bem estruturadas e relações baseadas no respeito e na escuta, o que irá favorecer a confiança dos estudantes e o engajamento nas aprendizagens. Assim, mais do que “acostumar” a criança à escola, a adaptação deve ser entendida como um tempo de encontro, escuta e construção de pertencimento, no qual cada criança é reconhecida em sua história, ritmo e singularidade.
Portanto, ainda que estejamos falando na adaptação da criança à escola, este processo envolve e é responsabilidade da escola e da família. A seguir, acompanhe o papel de cada uma delas:
O papel da escola no processo de adaptação
Durante o período de adaptação, cabe à escola:
- Planejar rotinas flexíveis e acolhedoras, respeitando o tempo de cada criança.
- Criar estratégias que favoreçam a construção de vínculos entre crianças, educadores e colegas.
- Estabelecer uma comunicação clara e empática com as famílias.
- Oferecer ambientes seguros, organizados e afetivamente significativos.
- Observar atentamente as manifestações emocionais e comportamentais das crianças, ajustando as práticas quando necessário.
A importância da família nesse processo
A família é parte central do processo de adaptação escolar. A forma como os adultos de referência apresentam a escola, falam sobre a experiência escolar e lidam com as próprias expectativas influencia diretamente a forma como a criança vivencia esse momento.
- Como a família pode contribuir na adaptação escolar:
- Transmitindo segurança e confiança na escola e nos educadores.
- Evitando despedidas longas ou carregadas de ansiedade.
- Respeitando os combinados estabelecidos com a instituição.
- Mantendo uma comunicação aberta com a escola, compartilhando informações relevantes sobre a criança.
- Compreendendo que reações como choro ou resistência podem fazer parte do processo e tendem a diminuir com o tempo.
Para finalizar, vale lembrar: não existe uma única forma de adaptação, nem um tempo padrão. O que existe é o compromisso ético e pedagógico de garantir que cada criança se sinta acolhida, respeitada e segura para aprender. Quando família e escola caminham juntas, a criança se sente amparada, fortalecendo sua confiança e autonomia.
Autora: Andreia Mendes Dos Santos
Psicóloga. Professora do Curso de Pedagogia e Pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Educação e em Sociologia e Ciências Políticas da Escola de Humanidades da PUCRS. Coordenadora do LabInf – Laboratório das Infâncias. Membro da Assessoria de Proteção a Infância e Adolescência do Marista Brasil.
Professora Adjunta da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul junto a Escola de Humanidades, nos Programas de Pós Graduação em Educação (PPGEDU) e Sociologia e Ciências Políticas (PPGSCP), assim como na Graduação em Pedagogia e demais Licenciaturas e, na Escola de Ciências da Saúde e da Vida, no Curso de Graduação em Psicologia. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Infância(s) e Educação Infantil (Nepiei) e dos Grupos de Pesquisa "Questões Sociais na Escola" e "Psicologia e Educação". Coordenadora do Laboratório das Infâncias LabInf. Coordenadora dos Cursos Latu Senso "Educação Inclusiva e Atendimento Educacional Especializado"; "Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil" e "Psicologia Escolar e Educacional". Editora da Revista Educação. Bolsista Produtividade CNPq (nível 2, 2024 -2027). Representante da PUCRS no Comitê de Infâncias da Rede Marista. Psicóloga, Mestre e Doutora em Serviço Social (PUCRS). Desenvolve estudos nas temáticas de infâncias, psicologia e educação, desenvolvimento infantil e escolar.
